quinta-feira, 3 de maio de 2012

Meio assim, diferente.


É encantador o jeito como você me olha, como sorri pra mim, o jeito que pede por abraço, seu cheiro quando se mistura ao meu, sua mão quando segura firme a minha, seu cabelo quando o joga para trás e ele cai lentamente em seu rosto cobrindo seus olhos, então você o joga novamente.
É frustante o jeito como você desvia o olhar direto para ele, o jeito que se esquiva do meu abraço quando cansa do mesmo, seu cheiro quando se mistura ao dele e fica grudado em minha jaqueta por horas, sua mão quando solta levemente a minha e o chama para mais perto, seu cabelo quando o joga para trás e ele o afasta afagando seu rosto, então você o abraça novamente.
Talvez o pouco já não seja mais suficiente

Vento, ventania.

Finalmente o frio chegou por aqui. O vidro da minha janela fechada fica úmido, posso até escrever meu nome nele. Retirei as cobertas do armário, deito e me aqueço com elas enquanto ouço música ou vejo um bom seriado no computador, esperando o sono chegar e me derrubar. Lá fora, o vento assovia, bate nos galhos das árvores e as folhas balaçam constantemente, muitas caem e meu quintal fica cheio delas, verdes, amareladas, roxas. Uma brisa úmida adentra meu quarto e sinto um arrepido gélido que me faz sorrir, é uma sensação gostosa, aperto a borda do meu edredon e me cubro até os ombros. Quando a música paras, escuto passos logo abaixo minha janela, fazendo barulho de folhas secas se quebrando, é apenas a gatinha que vem aqui de vez enquando, toda carente de olhos verdes esbugalhados. O vento começa a soprar mais e mais forte até fazer minha porta se abrir. Ouço alguns pingos de chuva começarem a cair em meio a ventania, é como se um furacão estivesse nascendo. É bom ficar aqui, quietinha, observando os barulhos que a natureza faz, pelo menos eu sei que se um furacão se formar, será lá fora e não dentro de mim, dentro das minhas emoções, para embaralha-las novamente,desmorona-las, me deixar confusa, perdida, sufocada.. Mas.. Pensando bem, não há nada hoje em dia tão fraco dentro de mim que se possa desmoronar. Não há nada dentro de mim.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Desabitada

Eu vivia sempre fechada, portas e janelas trancadas por dentro, chaves guardadas dentro da gaveta de um armarinho lá nos fundos, feito de madeira pura. Lá também ficavam alguns pertences, alguns objetos de valor sentimental ensacados, embalados e.. alguns eu havia perdido. 
Quando ao cair do Sol, apareceu alguém parado no meio da rodovia, me encarando, observando cada detalhe de mim. E ele foi se aproximando lentamente, pé ante pé, com cara de curiosidade, daquelas que a gente não suporta sentir até matar. Parou na minha frente e sorriu. Passou os degraus e pousou seus dedos na maçaneta empoeirada. Eu estremeci e ele assustou, afastando por dois passos. Mas não era do tipo que desiste fácil e voltou a tocar a maçaneta, tentou gira-la mas nada aconteceu. Ele desceu os degraus e foi checar as janelas, tentou abri-las mas novamente foi em vão. Então se sentou baixo a uma árvore perto de mim e retirou um pequeno lanche de dentro da mochila, depois de comer puxou um caderninho e um lápis e começou a rabiscar alguma coisa. Ficou alí por uma meia hora no mínimo, depois sorriu para mim e mostrou o desenho. Ele tinha os mesmo detalhes, a mesma perspectiva. Todas as marcas na madeira, a tinta descascada, as tábuas pregadas nas minha janelas.
Meu interior se preencheu de uma alegria quente e estasiante. Era como se eu estivesse sendo habitada novamente só por ter visto aquele pequeno desenho, aquele sorriso de menino despreocupado. Resgatei minha chave e me destranquei. Abri a porta e ela rangeu, chamando a atenção do rapaz que admirava a própria obra prima. Ele se levantou rapidamente e foi se aproximando novamente, colocou seu pé direito sobre meu assoalho e foi adentrando com os olhos atentos. Assim que senti sua presença viva em mim, Bati a porta num ímpeto de felicidade, mas isso fez com o que o rapaz se assustasse. Ele tentou puxar a maçaneta para sair mas eu não queria que ele fosse embora e me deixasse ali. Ele puxava e repuxava, começou a chutar e eu sentia dor, tanta dor que comecei a chorar, e o segundo piso foi se esvaindo em poeira sobre o primeiro. Alguns detritos cairam em cima do meu visitante. Ele começou a sangrar pelo ferimento na cabeça e ficou ainda mais apavorado. Tentei faze-lo se acalmar e então lhe empurrei uma poltrona, e não entendi quando ele se levantou assustado e começou a me chutar novamente.
Por fim, ele conseguiu arrombar minha porta e saiu correndo, olhando raivoso para trás. Pegou a bicicleta jogada na encosta da estrada e foi embora. Foi algo tão traumatizante que nunca mais me abri para ninguém. Ainda posso ouvir sua voz me dizendo "Casa idiota, casa idiota, casa idiota..."

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012



Days like these that you want to cry and punch the wall, asking why nothing that you planed before isn't gonna happen and everything seems so fucked up. Days like these that you feel guilty for walking slow and miss so much when you were young with no concerns or difficult questions. Days like these will never have and end and there's nothing you can do about it except live them. But days like these could be much easier if I had you, I could have a hand to intercept my tears and dry them, a warm to heat me, a eye to look inside, a mouth to join mine, a bed with no empty in between. Bring you to me in the end of days like these, I'll be glad to wake up with you by my side in the morning, in a clear and cold morning. The weight will ease at last.

domingo, 1 de janeiro de 2012

(in)constante

Vem e joga tua angústia num copo de cerveja, destila seu veneno acabando com a garrafa de vodka roubada. Afugenta teus pensamentos sórdidos na nuvem de fumaça de um cigarro barato. Deixa teus monstros trancafiados no vazio de tua consciencia, que de tão pesada, parece estar sobrecarregada. Vários sorrisos irão estampar teu rosto momentâneamente e todos acharão que estás feliz, até mesmo teus melhores amigos. Tua maquiagem vai começar a se desfazer e teus olhos irão tomar uma forma sonâmbula, com fortes olheiras abaixo deles. Abrace aqueles que te levam para o caminho mais fácil para a libertação de suas dores, diga que os ama.
Mas quando a noite cair novamente, e a solidão for sua companhia, e o vento lhe trazer o perfume fresco do qual tu não podes se lembrar, as lágrimas cairão sobre o que restar de tua maquiagem borrada e não haverá  nenhum braço para te envolver. Não haverá bebida que te sacie a agonia nem cigarro que te tampe a visão  frente a um espelho molhado pelo vapor do chuveiro. Quem é que te acolhe nessas horas? Onde estão teus falsos sorrisos? O que restara de ti, afinal?


sábado, 12 de novembro de 2011

Perfume de dar medo

Quando era criança, eu tinha um pesadelo que se repetia por várias e várias noites. Eu estava escondida embaixo de uma mesa branca dentro de uma sala toda branca, algumas pessoas estavam sentadas em volta, inclusive meu pai e minha mãe. Havia um padre na ponta da mesa e uma senhora de idade ao lado dela, de cabelos grisalhos, roupas sujas e rasgadas, com muitas rugas por todo o rosto, suas unhas era pontudas e mal cuidadas. Ela empunhava uma faca, dessas que se usa em cozinha mesmo, e se mostrava um tanto quanto atordoada. Eu estava com medo de sair debaixo daquela mesa e a velha me pegar, mas criei coragem e sai correndo. Foi então que percebi que estava dentro de uma igreja. Meus pais sairam correndo junto comigo pelas escadas. A senhora começou a nos seguir, correndo - a seu tempo - atrás de nós. O único caminho a se tomar era o de um labirinto, todo enfeitado com rosas pintadas de vermelho, assim como "Alice no país das Maravilhas". Enquanto fui seguindo o labirinto, tentando encontrar a saída, perdi meus pais pelo caminho e as flores e os arbustos foram ficando cinzas, como se alguém tivesse provocado uma queimada, e o cheiro de rosas mortas e tinta fresca foi invadindo meus pulmões. Tudo atrás de mim ia desaparecendo, então tropecei em algo e caí, olhei rapidamente para cima, mas a escuridão era a única coisa que havia alí. Então eu acordava, e o cheiro das rosas permanecia. Até hoje sei identificar o aroma exato, e todo esse pesadelo nunca mais saiu da minha cabeça.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Maldade corroída?

A bondade em mim foi amadurecendo, e todos sabemos que quanto mais velhos ficamos, mais inocência deixamos para trás. Passar por desafios nos faz enxergar o mundo em visões diferentes, que chamamos de escolhas, podemos realizar grandes feitos ou então foder nossas vidas, tudo depende do que fazemos com a dor adquirida.
Vi minha angústia se tornar parte da minha vida, algo que eu já não sofria mais por ter, como um câncer que não tem cura, mas que também não mata. Transformei várias vezes lágrimas em sorrisos estampados como outdoors, por trás deles sempre há um lugar sujo, de uma paisagem envelhecida e desagradável aos olhos.
Não penso tanto nas consequencias dos meus atos quanto antes, o que foi feito, está feito, e o que farei, procuro não prever nem treinar minha mente para que haja conforme foi planejado. Nem sequer planejo.
Me passam maldades pela cabeça, mas ainda me resta algum escrúpulo que me impede de coloca-las em prática. Não sei se devo agradecer por isso.